Foi através da indicação de amigos que Altair, recém-formado em medicina em uma universidade respeitada no Rio Grande do Sul, ficou sabendo de uma vaga para trabalhar na pacata cidade de Milharal, cidade localizada a aproximadamente três horas e meia da capital gaúcha. Muitas pessoas próximas a ele contestaram sobre sua ida, alegando que morar em uma cidade que nem estava no mapa iria ser bastante complicado, a princípio.
Entretanto, Altair tinha expresso nas feições que não temia desafios. Sua pele morena e seus traços rudes, como barba por fazer e braços fortes o faziam parecer mais um fazendeiro do que propriamente um doutor. Sua origem também havia sido humilde, crescera no campo e, por isso, não se queixava da rotina portoalegrense. Quando a sua própria mãe o questionou sobre sua ida, ele sorriu e beijou-lhe a testa dizendo: "Tudo ficará bem, querida".
E no início, tudo fluiu realmente bem. Os habitantes de Milharal foram receptivos à sua chegada. Havia poucos médicos na cidadezinha, então um a mais (e ainda por cima, jovem) era sempre bem-vindo. Certa noite, saindo de seu consultório na Rua Mauliola, considerada o pequeno centro da cidade, o jovem doutor encontrou um senhor velho, de aspecto cansado, que trazia consigo algo na mão.
Altair, acostumado com a rotina de cidades movimentadas, desconfiou que pudesse ser um assalto e apertou um pouco o passo. O homem, que antes parecera cansado, correu até alcançar a frente de Altair e, sem dizer nada, esticou a mão para lhe entregar uma sacola. Pelo odor, podia-se notar que havia bebido:
– O que é isso? Quem é você? - indagou o médico.
Entretanto, Altair tinha expresso nas feições que não temia desafios. Sua pele morena e seus traços rudes, como barba por fazer e braços fortes o faziam parecer mais um fazendeiro do que propriamente um doutor. Sua origem também havia sido humilde, crescera no campo e, por isso, não se queixava da rotina portoalegrense. Quando a sua própria mãe o questionou sobre sua ida, ele sorriu e beijou-lhe a testa dizendo: "Tudo ficará bem, querida".
E no início, tudo fluiu realmente bem. Os habitantes de Milharal foram receptivos à sua chegada. Havia poucos médicos na cidadezinha, então um a mais (e ainda por cima, jovem) era sempre bem-vindo. Certa noite, saindo de seu consultório na Rua Mauliola, considerada o pequeno centro da cidade, o jovem doutor encontrou um senhor velho, de aspecto cansado, que trazia consigo algo na mão.
Altair, acostumado com a rotina de cidades movimentadas, desconfiou que pudesse ser um assalto e apertou um pouco o passo. O homem, que antes parecera cansado, correu até alcançar a frente de Altair e, sem dizer nada, esticou a mão para lhe entregar uma sacola. Pelo odor, podia-se notar que havia bebido:
– O que é isso? Quem é você? - indagou o médico.
Percebeu que o velho mascava uma goma de mascar, o que tornava sua fala ainda mais estranha.
– Meu nome é José Carlos, mas todos me conhecem por Zecão. Vim aqui a pedido dos índios de uma aldeia vizinha pra te entregar isso. Pegue!
O médico analisou a sacola, que parecia conter algumas ervas. Sem mover-se para pegar o saco, perguntou novamente:
– Mas por que isso? O que tem dentro da sacola? Escuta amigo, eu estou com pressa, se tu me deres licença...
– Não se assuste comigo não, moço! - pediu o homem - Eu sou feio mas não faço mal nenhum, o que tem nesse saco são ervas e orações escritas, pra 'mó di ajudá o sinhô' nas suas curas. Cê vai precisar... - disse o velho, com sorriso irônico.
O médico agarrou a sacola com raiva e saiu do local sem dizer mais nada. Ao chegar em casa, Altair examinou o conteúdo do "presente". Havia realmente inúmeros tipos de ervas e folhas de caderno amassadas. Nos escritos, estavam diversas orações desconhecidas, com o uso de palavras que evocavam a natureza e aos grandes espíritos. Pensou em jogar tudo fora, mas hesitou e acabou deixando o pacote na garagem.
O médico analisou a sacola, que parecia conter algumas ervas. Sem mover-se para pegar o saco, perguntou novamente:
– Mas por que isso? O que tem dentro da sacola? Escuta amigo, eu estou com pressa, se tu me deres licença...
– Não se assuste comigo não, moço! - pediu o homem - Eu sou feio mas não faço mal nenhum, o que tem nesse saco são ervas e orações escritas, pra 'mó di ajudá o sinhô' nas suas curas. Cê vai precisar... - disse o velho, com sorriso irônico.
O médico agarrou a sacola com raiva e saiu do local sem dizer mais nada. Ao chegar em casa, Altair examinou o conteúdo do "presente". Havia realmente inúmeros tipos de ervas e folhas de caderno amassadas. Nos escritos, estavam diversas orações desconhecidas, com o uso de palavras que evocavam a natureza e aos grandes espíritos. Pensou em jogar tudo fora, mas hesitou e acabou deixando o pacote na garagem.
Ato 2.
Na manhã seguinte, já esquecido o incidente anterior, Altair está em seu consultório, recebendo uma ligação de amigos da capital gaúcha quando sua secretária interrompe a ligação dizendo:
-- Com licença, doutor Altair, mas tem uma senhora que precisa ser atendida urgente. Ela está delirando de febre, vomitando e passa muito mal.
-- Já vou. - respondeu prontamente o jovem médico e despediu-se ao telefone.
Altair medicou a pobre senhora como pôde, deu-lhe medicação para a febre e pediu à enfermeira que lhe aplicasse uma injeção para os vômitos. Pelo sintomas parecia ser a dengue, doença que já havia muito visto de perto na capital mas não tinha como ter certeza. Depois desta, muitos outros pacientes apareceram com os mesmos sintomas.
Uma semana depois, no caminho a pé para casa, enquanto saboreava uma chuva fina de garoa, o jovem foi interpelado por uma mocinha negra, de aparentemente vinte anos:
-- Doutor, aquele remédio que "tu deu" pra minha avó...
-- Quem é tua avó? - perguntou, relembrando os diversos pacientes daquela semana tumultuada.
-- Marilene de Souza. O senhor atendeu ela na segunda pela manhã. Acontece que ela passa muito mal, ficou entre a vida e a morte ontem, até pensamos em ti ligar, ligar pro consultório mas aí...
-- O que aconteceu? Como ela está agora? Por que não a trouxeram de volta no consultório?
-- Ela foi para a aldeia, doutor. E graça aos índios ela está melhor.
Ele a olhou descrente. A mocinha continuou, nitidamente irritada:
-- Tu devia aprender com eles, doutor. Eu sei que tu ainda é novo e não sei bem o que fizeram, mas que nossa mãe voltou da quase-morte ela voltou sim!
Antes de ir embora, cuspiu no chão próximo a Altair e gritou para que todos do comércio ouvissem:
-- A MEDICINA É UMA FARSA!
Altair ficou onde estava, paralisado. Não havia o que dizer, não havia o que responder, talvez ela estivesse... CERTA! Talvez todos os anos de estudo nada servissem e... Quem seria ele para acreditar ter o poder da cura?
A chuva começou a engrossar mas Altair não ligou para a mudança, dentro dele a tempestade já havia começado. Voltou para a casa contando os passos, enviou e-mail para a família em Porto Alegre mas sobre isso nada comentou. Enterraria com ele a incapacidade que nunca acreditou ter.
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Resumo breve: História de um médico (Altair) que parte para a cidadezinha de Milharal, no interior do RS. O médico recém-formado frustra-se por não conseguir descobrir uma cura para uma doença que aflige as pessoas de sua vila. Descrente do eficaz uso de ervas e orações adotadas pelos indígenas em uma aldeia perto da cidadezinha, ele acaba por descobrir a cura em uma erva há muito usada pelos indígenas e passa a questionar sobre seus estudos e capacidade humana de cura.